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Vinho e Saúde > Dr. Jairo Monson de Souza Filho

O Vinho e o Coração

Jairo Monson de Souza Filho

O Vinho toca o coração. Não só porque ao impressionar os nossos sentidos, fala à alma, mas também do ponto de vista médico.

O Coração é um órgão único! É nele que escolhemos guardar os sentimentos e as pessoas que amamos e queremos bem. Uma pessoa boa tem bom coração. Não há nada mais generoso que um coração de mãe. É um dos poucos órgãos do organismo que não tem um par, como os pulmões, os rins, o cérebro, as orelhas, as pernas, os braços, etc. Ele também é importante e único porque parando, todos os outros deixam obrigatoriamente de funcionar.

O que despertou a atenção para os efeitos do vinho sobre o coração foi a divulgação do “Paradoxo Francês” pelo cientista Serge Renaud no programa “60 Minutes”, da rede de TV americana CBS, na noite de 7 de novembro de 1991. No ano seguinte, Renaud e o colega Lorgeril publicaram seus dados e conclusões na prestigiada revista médica “The Lancet”. Eles concluíram que a ingestão leve e moderada de bebidas alcoólicas, sobretudo vinho, reduz o risco das doenças e da mortalidade cardiovascular em 40% a 60%. Hoje milhares de pesquisas científicas validam esses dados.

Quem toma bebidas alcoólicas moderadamente tem uma reconhecida proteção contra doenças cardiocirculatórias, quando comparados com os que bebem muito ou que são abstêmios. Mas quem bebe vinho moderadamente tem uma proteção maior. A ação cardioprotetora se deve em parte ao álcool , em parte aos polifenóis e muito à ação sinérgica dos dois, o que praticamente só o vinho tem. Essa cardioproteção ocorre tanto em homens como em mulheres, mesmo após a menopausa.

O álcool aumenta o colesterol HDL (o bom colesterol) , principalmente as frações HDL2 e HDL3 e diminui a velocidade de oxidação do colesterol LDL ( o mau colesterol). Este, quando oxidado, adere à parede dos vasos sanguíneos formando placas de gorduras – a aterosclerose – que progressivamente vão obstruindo as artérias. Os polifenóis, além da potente ação antioxidante, que impede a oxidação do colesterol LDL ( e consequentemente o seu depósito em placas), tem uma ação antiinflamatória que é uma barreira à inflamação inicial da aterosclerose.

As placas de gordura muitas vezes se rompem e formam coágulos, que chamamos de trombos. Eles muitas vezes obstruem de maneira abrupta as artérias ou veias, levando a conseqüências trágicas para o organismo: infarto do miocárdio, se comprometer uma coronária; derrame cerebral, se for em vaso sanguíneo cerebral; gangrena, se for em um membro. As plaquetas são as responsáveis pela formação desse coágulo. Os polifenóis do vinho inibem a agregação plaquetária, fenômeno que desencadeia a formação do trombo, de maneira semelhante ao ácido acetil salicílico. Aliás, essa substância, muito usada na prevenção e no tratamento de doenças cardiocirculatórias, está presente nos vinhos brancos em cerca de 30 mg/l e um pouco mais nos tintos.

Os polifenóis do vinho (e também do suco de uva) modificam a camada interna dos vasos sangüíneos – o endotélio. Desse modo, alteram a produção de óxido nítrico e diminuem outras moléculas de adesão ao endotélio. Isso dificulta a formação de placas de gorduras e dilata os vasos sangüíneos reduzindo a resistência ao fluxo de sangue, o que melhora a circulação como um todo e diminui o esforço do coração para fazer o sangue circular, preservando-o.

O vinho é uma oferenda dos deuses para o coração, mas é preciso estar alerta a algumas situações. O vinho, por causa do álcool, pode causar arritmia cardíaca, na maioria das vezes fibrilação atrial. Isso só ocorre nas pessoas que têm sensibilidade aumentada ao efeito arritmogênico do álcool. É um efeito que não depende da dose, mas da sucetibilidade individual. Uma em cada 500 pessoas que bebem mais do que um litro de vinho por dia, por um período superior a dez anos, irá desenvolver miocardiopatia alcoólica. Nessa situação clínica, o coração dilata e perde força, ficando insuficiente.

O efeito protetor do vinho sobre o coração está relacionado a ingestão moderada, regular e durante as refeições, quando não houver contra-indicação ao consumo de álcool. É desta maneira que melhor ocorre a absorção das substâncias cardioprotetoras. Beber muito de uma vez ou fora das refeições é privar o organismo dos melhores benefícios que o vinho pode nos oferecer.

Jairo monson de souza filho é médico cardiologista.

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