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De Tinto Sabor

Joel Thrinidad

O que se deve dizer quando chega à hora de abrir a garrafa?

Parece que dilacera o coração com uma falta que ainda será sentida, a partir do momento em que se ouve o estampido da rolha desnudando o aroma inconfundível do Carbenet. Uma falta de cerimônia em separar o líquido da transparente alcova e colocá-lo em doses delicadas na taça fria que se esquenta levemente.

O aroma vai dando lugar aos sentidos, como se abrisse a mente para algo inimaginável e instransponível. O coração acelerado numa pressa de repousar tranqüilo após o primeiro gole que numa falta de pudores parece desvirginar a flora do peito logo abaixo do esôfago e em seguida reflete no rosto um sorriso sem igual.

Não dá pra dizer que continuamos os mesmo depois dessa confusão dos sentidos, em que o tato dá lugar a visão, que dá lugar ao olfato, que dá lugar ao paladar e porque não dizer à audição que logo assume ansiosamente o posto dos sentidos e que de uma maneira descarada e desavergonhada acaba sendo a primeira a ouvir o estalido das taças erguidas para o alto pelo motivo que reúnem todos os celebres a mesa?

Ah! Se todos os vinhos soubessem que nos arrancam a alma e nos colocam ali postados diante de um cerimonial de cores, estupefatos de um perfume marcante capaz de nos arrancar as mais secretas confissões e de nos colocarem de pés juntos, revelados de nós mesmos e que depois de degustá-los nós fazem pensar que amanhã já é tarde e que ontem nos mantêm reféns de um sabor sem igual.

Diante do jantar romântico em que apenas dois participam de uma festa de olhares, a moça que delicadamente ver o vinho transpor o sagrado para o eterno, do amargo para o doce, do simples ao mais sofisticado liquido se delicia num prazer impronunciável. Parece que entre o nosso olhar e o dela se acende a luz da vela como uma tocha que guiam dois por um caminho só. Não dá pra não ser modesto na escolha, assim como não dá para não se admitir que o vinho seja o cardeal dos amantes que passeia por entre as veias do corpo até chegar ao coração, feito um verdadeiro Pinot noir suavizando os aromas intensos evoluindo muito bem com o passar dos anos. E os anos são o bem mais desejado pelos amantes diante da possibilidade de um futuro feliz.

Vem à boca um sabor de amora, cereja e às vezes de insensatez e de uma súbita alegria que nos envolve numa sensação de rejuvenescimento. Bate o amor à porta enquanto o vinho bate no âmbar do espírito nos enchendo de graça. Nem o melhor dos amantes consegue decifrar o que essa mistura é capaz de fazer. Assim como não se pode explicar também como um só gole de Merlot tenha tantos beijos fermentados do que o tanino do vinho, um sabor de um pecado tão adstringente feito um corpo nascido da costela da uva.

Quisera a alma do homem ter tanta tinta para escrever capítulos inteiros a mão sobre a sensação que um bom vinho é capaz de dar, assim como uma mulher entregue aos braços largos e serenos do homem que lhe toca a alma de tinto sabor.

Nessas horas dá vontade de chamar de mãe à videira que nos alimenta de vinho e pai aos pés que pisam o chão e que tira de lá o sustento da terra, capaz de matar de inveja o próprio homem incapaz de ficar melhor a cada ano e morrer feito um Malbec na boca e na alma jovem da mulher.

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