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Segredos do Vinho > Jean Pierre Faure, enólogo responsável do Chateau Latour Blanche em entrevista exclusiva

Jean Pierre Faure, enólogo responsável pelo Chateau Latour Blanche em entrevista exclusiva

É com muita satisfação e admiração que entrevistamos o senhor Jean Pierre Faure, Maitre de Chai (enólogo responsável) do Chateau Latour Blanche.


Jean Pierre iniciou sua formação em 1967 com o curso de agricultura geral, e em 1969 estudou no Lyceu agricole de Latour Blanche, onde fez o curso superior de enologia e viticultura. Filho de viticultor ele estudou com o propósito de dar continuidade aos vinhedos e vinhos de seu pai, porem, ele muito jovem, recém formado e cheio de idéias novas e técnicas modernas acabou encontrando resistência da parte de seu pai, que preferia manter as coisas exatamente como estavam. Ele então resolveu trilhar seu caminho, soube que o maitre do chai do chateau Latour Blanche estava se aposentando e enviou seu currículo, foi chamado e esta a frente do Latour Blanche desde então.

Vinhoepoesia.com.br - Há quantos anos o senhor trabalha como maitre de chai do Chateau Latour Blanche?

Jean Pierre - Eu comecei no Latour Blanche em 1974, são trinta e três anos trabalhando aqui, amo o que faço e espero me aposentar aqui.

Vinhoepoesia.com.br - Com a sua experiência em vinificações de vinhos licorosos, o senhor pode nos dizer quais são as maiores dificuldades da vinificação de um vinho de Sauternes?

Jean Pierre - A maior dificuldade é a matéria prima, trabalhar com uvas botrytizadas é bem difícil. Embora seja uma podridão nobre, que é o que torna o Sauternes um vinho peculiar, harmonizar gustativamente álcool, açúcar e acidez não é tarefa simples. E claro, nós dependemos muito da meteorologia, ela é fundamental para uma boa colheita, em anos que chove muito, há uma menor concentração de açucares e o SO2 se combina mais e torna toda vinificação mais difícil.

Vinhoepoesia.com.br - Quais foram às melhores safras dos vinhos licorosos de Sauternes?

Jean Pierre - Bem diversas foram muito boas, mas vou eleger as que considero excelentes, 1990, 1997, 2003 e 2005, com certeza são maravilhosas.

Vinhoepoesia.com.br - O senhor tem alguma safra que considera especial? Qual é? E por quê?

Jean Pierre - A de 1985 foi uma que me marcou muito, não por ser uma excelente safra, mas porque foi um ano que fez muito calor, não tinha botrytis, porque não tinha umidade suficiente, foi sem dúvidas uma safra muito difícil e totalmente atípica. A colheita começou entre 15 e 20 de setembro e foi ate o final de novembro, sendo que apenas 30% das uvas foram botrytizadas… foi sem duvida um ano de muito aprendizado. E a de 2003 é o inverso da de 85, esta foi excelente, a meteorologia ajudou muito fez também muito calor, mas com umidade suficiente. Foi tudo perfeito, no dia 15 de setembro todas as uvas estavam podres, o que dificilmente ocorre, nos obrigando normalmente a ter que fazer seleção de grãos para colher, nesta as uvas estavam homogenias, e em 15 dias sem interrupções tivemos que colher e vinificar, sem pausas. Essa sim foi uma excelente safra.

Vinhoepoesia.com.br - Em relação a enogastronomia, quais os pratos que harmonizam bem com os vinhos licorosos de Sauternes?

Jean Pierre - O Sauternes é um vinho licoroso que é servido sempre como aperitivo, jamais deve ser servido como vinho de sobremesa junto com bolos e doces. Ele fica perfeito com fois gras, com queijo roquefort, mas também com carnes brancas como frango e porco.

Vinhoepoesia.com.br - Qual a diferença de um maitre de chai e de um enólogo?

Jean Pierre - Bem a formação de um maitre de chai é o curso superior, já a de um enologo é bem diferente, apos o curso superior ele precisa fazer engenharia agrônoma e após uma especialização em enologia. Aqui o maitre de chai é o responsável por tudo na vinícola, vinhedos, vinificação, engarrafamento e expedição. Já o enologo é mais um consultor, como se fosse um doutor, se eu tenho algum problema durante a vinificação, por exemplo, e eu não consigo resolver eu chamo um enologo que vai me dizer o que eu devo fazer. Mas em alguns chateaux o enologo e o maitre do chai.

Vinhoepoesia.com.br - Em sua opinião quais as características indispensáveis para ser um bom maitre de chai?

Jean Pierre - O indispensável é saber degustar mostos, saber diferenciar mostos bons de ruins é muito importante. Ser modesto, não ser orgulhoso e pretensioso, não pensar que só eu sei fazer vinho. Estar em contato com outros profissionais, trocar informações com enologos e sair para conhecer outras vinicolas é sempre importante. Mas sobre tudo, amar o que se faz eu acho que é fundamental em qualquer profissão.

Vinhoepoesia.com.br - Qual sua opinião sobre o mercado consumidor dos vinhos licorosos de Sauternes?

Jean Pierre - O mercado é muito bom, não temos problemas de comercializar porque é um produto único, e de 1ha de vinhas elaboramos aproximadamente 25 hectolitros de vinho, ou seja , mais ou menos uma taça de vinho por pé de vinha, e o consumidor sabe disso e compra porque sabe que a produção é pequena. E outra coisa que nos ajuda muito nas vendas e que somos uma escola muito bem conceituada e temos uma denominação de origem muito boa, somos um primier cru, o que nos diferencia de muitos chateaux.

Vinhoepoesia.com.br - Qual a diferença do Sauternes para os outros vinhos licorosos?

Jean Pierre - Não tem como traçar uma comparação, cada vinho é diferente, cada região é diferente, o terroir, o clima, a meteorologia, as cepas, as técnicas de vinificação, enfim, mesmo na França, há grandes diferenças dentro da mesma região.

Vinhoepoesia.com.br - Na pergunta anterior o senhor disse que mesmo dentro da França e na mesma região os vinhos são diferentes, o senhor poderia então nos explicar a diferença dos vinhos de Barsac e de Sauternes, uma vez que ambos estão na mesma região?

Jean Pierre - Bem, o solo é totalmente diferente, em Barsac o solo é argiloso e a base de oxido de ferro, e há uns 50cm de terra e abaixo um plato de calcário. São elaborados com as mesmas técnicas, com as mesmas cepas, mas gustativamente são bem diferentes, e tudo devido a influencia do solo. Em Barsac os vinhos são mais nervosos, mineral, silex, tudo devido ao solo calcário. Já em Sauternes são mais agradáveis, mais finos e equilibrados.

Vinhoepoesia.com.br – O senhor conhece os vinhos brasileiros? Qual sua opinião sobre eles?

Jean Pierre – Infelizmente não conheço os vinhos brasileiros, ainda não tive oportunidade de degustá-los, mas tenho grande curiosidade de conhecer. Não é muito comum encontrar vinhos brasileiros aqui na França, já vi diversos sul americanos, da Argentina, do Chile, do México e do Uruguai, porém nenhum do Brasil.

Despedimos-nos do senhor Jean Pierre, convidando-o para conhecer as regiões vitivinícolas do Brasil e agradecendo a disponibilidade e a gentileza em ter nos atendido após um dia agitado de trabalho em plena vindima.



Agradecimento

Monsieur Jean Pierre Faure,
Vinho e Poesia vous remercie bien sincèrement de votre gentillesse de nous avoir reçu et d’avoir partagé votre expérience. Encore une fois, merci de votre contribution.
Bien cordialement,
Deise Pelicioli

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